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Mostrando postagens de outubro, 2025

508 anos da Reforma: por que o evangelicalismo brasileiro precisa de reforma?

Neste 31 de outubro de 2025 celebramos 508 anos desde o gesto simbólico de Wittenberg que costuma marcar o início da Reforma — um acontecimento que não se reduz a uma data, mas que desencadeou um processo histórico e teológico prolongado. A Reforma nasceu num terreno onde a Igreja medieval acumulava poder, privilégios e riquezas e onde práticas como simonia, ostentação litúrgica e venda de indulgências haviam transformado instrumentos pastorais em mecanismos de vantagem e transação. Essas distorções não foram apenas escândalos administrativos; elas remodelaram a própria teologia: quando ritos, cargos e doações passam a condicionar benefícios espirituais, o acesso a Deus deixa de ser pensado pela obra única de Cristo e passa a operar segundo uma lógica de mérito e mediação humana. A simonia corroeu a credibilidade do ministério ao transformar ofício em mercadoria; as indulgências instauraram uma economia sacramental em que o perdão podia ser monetizado. O resultado foi a erosão da dout...

O Uso Legítimo dos Prazeres na Ética da Liberdade Cristã

O Uso Legítimo dos Prazeres na Ética da Liberdade Cristã Introdução A delimitação ética da conduta cristã, especialmente no que tange à legitimidade dos prazeres e à liberdade individual, constitui um tema recorrente na tradição teológica e pastoral. A pergunta “o que é permitido ao cristão?” não pode ser respondida de forma simplista ou desvinculada da Escritura, da história da interpretação e das implicações doutrinárias que envolvem corpo, espírito, santidade e vocação. Este artigo propõe uma abordagem exegética e hermenêutica de caráter histórico-gramatical, examinando os principais textos bíblicos que tratam da liberdade cristã, da santificação e do uso legítimo dos bens criados. A análise será enriquecida por referências à tradição reformada e patrística, bem como por uma crítica à influência do pensamento platônico — cuja dicotomia entre corpo e espírito gerou, ao longo dos séculos, práticas ascéticas e legalistas que nem sempre encontram respaldo na revelação bíblica. Ao final,...

Por que Deus permite o mal? Causas secundárias e o problema do mal sob uma perspectiva bíblico-exegética ortodoxa

As causas secundárias e o problema do mal sob uma perspectiva bíblico-exegética ortodoxa I. Introdução A pergunta “Por que um Deus bom e todo-poderoso permite o mal?” é uma das mais antigas e profundas da teologia cristã. A tradição ortodoxa oferece uma resposta robusta ao afirmar que Deus governa todas as coisas como causa primeira, mas o faz por meio de causas secundárias reais — agentes, processos e leis criadas — sem ser autor do mal. Essa doutrina preserva a santidade divina , a responsabilidade humana e a integridade da criação, ao mesmo tempo em que afirma a soberania absoluta de Deus. Este artigo desenvolve o conceito de causas secundárias na providência divina, articulando exegese de textos-chave, distinções técnicas (como concursus e compatibilismo ), e testemunhos da tradição reformada e dos pais da Igreja . A tese central é que Deus, como causa primeira, governa todas as coisas por meio de causas secundárias reais, sem eliminar a liberdade das criaturas nem imputa...